Fru.to: seminário discute a relação do homem com o alimento

Confira os destaques do evento promovido pelo Instituto ATA, que aconteceu no último final de semana de janeiro, em São Paulo

O seminário Fru.to: Diálogos do Alimento, movimentou a capital paulista no último final de semana de janeiro. O encontro é um dos pilares da plataforma de mesmo nome, que visa conectar, engajar e mobilizar ações no campo da alimentação, e foi idealizada pelo Instituto ATA.

 

A iniciativa, realizada pelo chef Alex Atala e pelo produtor cultural Felipe Ribenboim, levou ao palco mais de 50 profissionais, entre chefs, agricultores, políticos e ativistas, para que juntos discutissem a relação entre homem e alimento. Entre os temas abordados estiveram inovação tecnológica, empreendedorismo, neurociência, agronegócio, políticas públicas, desperdício e educação. Esses últimos três foram mote da série de mesas-redondas – novidade da programação nesta segunda edição do evento.

 

“Educação alimentar é algo vital. E é preciso rever o seu papel e o momento em que ela entra na vida dos indivíduos. Um adulto que não usa açúcar é visto como correto, conhecedor da reeducação alimentar, mas a criança que cresce sem o mesmo açúcar é tida como coitadinha!”, comparou Bela Gil, chef e apresentadora de TV, que compôs uma das mesas de debates. “Por que não educar desde cedo? Com coisas simples, é possível mudar e evitar muitos dos problemas que vemos por aí, como o desperdício. Cerca de ⅓ do alimento que é descartado no mundo, sai da casa das pessoas. A gastronomia pode e deve ser encarada como uma disciplina escolar, gerando, entre outras coisas, a empatia da criança com o ingrediente, a planta, a terra”, complementa ela.

 

Ariane Fachinetto, 17 anos, estudante, contou sua história no evento:: “Cresci comendo arroz, feijão, macarrão e carne, em casa. No lanche da escola, era bolacha e mais bolacha. Legume e fruta não faziam parte do meu cotidiano, e só fui descobri-los recentemente, em projetos de ocupação de que participei na periferia, em bairros como Brasilândia e Campo Limpo”, confessa. Ela, então, começou a questionar a escola pela falta desses insumos. E foi censurada pela diretora, por estar causando uma “revolução”. A intimidação teve efeito contrário: Ariane passou a agir ainda mais ativamente pela mudança do cenário. Conseguiu, e acabou se tornando uma líder comunitária de destaque.

 

Outro que ganhou notoriedade em sua região pelo ativismo pelo alimento foi o paulistano Thiago Vinícius, da Agência Solano Trindade. Thiago mobilizou comunidades da Zona Sul, em especial a do Capão Redondo, onde nasceu. Com sua ajuda, a região hoje é citada como exemplo de economia solidária; Thiago implantou jantares e feirinhas com chefs famosos, um guia gastronômico e até um delivery de orgânicos, o Armazém Organicamente, cujos pedidos podem ser feitos pelo Whatsapp, a preços acessíveis. “Uma família poder comprar um pé de alface a 3 reais e sem agrotóxico, na periferia, era algo impensável. Imagine que mesmo para comprar um legume qualquer, verdura ou fruta, nessas regiões da cidade, é difícil. Tudo fica longe e os produtos são caros. O que acaba acontecendo? Todo mundo resolve suas compras na vendinha da esquina de casa, que basicamente só vende industrializados, cheios de gordura, açúcar e química’, explica ele.

 

Motivada por essas histórias inspiradoras, a chef Bel Coelho, uma das convidadas a encerrar o evento, reafirmou sua crença em atos públicos  – caso do banquetaço e da manifestação contra a PL do Veneno – e ações particulares, como agentes de transformação das diferentes realidades do Brasil . “Eu, como elite e privilegiada, tenho que ‘aproveitar’ dessa minha condição para consumir o alimento bom, produzido por empresas justas, fazendo a cadeia girar e cobrando que o cenário seja ampliado e democratizado”, diz ela. “Também não podemos só reclamar e dar palpites em realidades que não conhecemos. Coloquei meu filho na rede pública de ensino, por exemplo, para poder entender e começar a questionar a merenda das escolas públicas paulistanas”, conta ela.

 

Desses três dias intensos, como feito no ano passado, deve nascer um documento – “As 10 sementes do Fruto 2019” compilará as principais ideias e questionamentos levantados e que devem ser tratados ao longo do ano por todos os envolvidos no projeto e seus parceiros, bem como toda a comunidade interessada nessas causas.

 

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