Receitas de Natal e réveillon: entre tradições baianas e estrangeirismos

“Eu me lembro dessa época de final de ano com muita alegria!” No meu tempo de criança,  era tudo lindo: a decoração, os preparativos, a comida… Lembro muito de ter rabanada, bolo de frutas, peru e bacalhau. E me entristeço com quem diz que detesta o Natal. Eu teria todos os motivos para ser assim também, já que perdi meu pai quando eu 12 anos e minha mãe, aos 16. Mas encaro a temporada festiva como um momento meu de celebrar os bons momentos que tivemos, seja com amigos, família e até sozinha – já passei muitas vezes assim, mas fazia questão de montar uma mesa belíssima, assar um tender pequeno, fazer farofa, ter um espumante. Não é uma data para chorar a tristeza, é para ser leve.

 

No capítulo ‘receita de família’, o que nunca podia faltar era o bolo de frutas secas da minha mãe! Eu era muito criança, mas me lembro do sabor daquela massa de frutas secas, embebida com calda de ameixa, uísque, conhaque… Era divino. Ainda hoje sonho com ele. Acredito que o bolo que mais se parece com esse é o tradicional bolo de Noiva pernambucano, pela semelhança na riqueza dos mesmos ingredientes.

 

Outra lembrança muito forte que tenho é do ritual do peru. Na Bahia, minha terra, dias antes da festa, todo mundo já está falando do peru e de como embebedar o peru. Explico: ali, é tradição dar um litro de cachaça para ave, ainda viva. Esse, dizem, seria um artifício para deixar a carne macia. No dia seguinte, ela é sacrificada, depenada e imersa em uma vinha d’alhos, tempero feito com muito alho, cebola e vinagre, em que ela deve dormir uma noite. Só depois disso tudo ela estava pronta para ir ao forno. Fato interessante: quase ninguém tinha fornos onde coubesse o preparo! Por isso, era tradição levar o peru para assar na padaria! Tudo isso é muito Brasil! Já nesses tempos, o peru era servido com uma boa farofa. A questão de servir e/ou decorar com frutas e compotas veio da influência americana, provavelmente no período pós-guerra, depois de 1945. Aqui também entraram os doces em compota e chegaram com aquele furor de novidade e muito frisson.

 

Aliás, esse costume de servir peru é importado. Mais antigamente, o comum mesmo era que o prato principal da ceia de Natal fosse o que as pessoas tivessem à mão – no quintal ou no vizinho: galinha, porco, marreco, carnes que eram assadas ou enriquecidas com legumes em forma de cozidos. (Que tal usar essa dica e abrasileirar o seu Natal preparando um marreco assado, receita típica do Sul do Brasil?) Na casa dos mais abastados, às vezes aparecia bacalhau. Temos que pensar na geografia e na realidade da época (que ainda funciona para uma reflexão atual): a pessoa que está no Sertão vai fazer peixe, peru ou vai comer o que tiver ali e que o dinheiro puder comprar?

 

Quando vim morar em São Paulo, com 20 e poucos anos, me deparei com os costumes europeus, especialmente o dos portugueses, amplamente difundidos pelas casas. Quase não acreditei quando vi aquelas fatias de pão douradas, ali chamadas de rabanada, com destaque na mesa natalina. Eu as conhecia como ‘fatias de parida’, uma receita portuguesa que comíamos no dia a dia, em casa, com leite. Foi uma surpresa deliciosa para mim!

 

Já nos tempos da revista Claudia, descobri os biscoitos típicos desta festa: os ‘gingerbread’, feitos com gengibre, reflexo dos costumes gringos. Mas, aqui, gostaria de fazer uma provocação: por que adotar algo assim se temos receitas deliciosas nossas desses quitutes, caso dos biscoitinhos de nata, araruta, e o de castanha?

 

Para não deixar de falar do réveillon: não sei se todo mundo sabe, mas o peru é um prato típico do Ano Novo, segundo os costumes baianos. Ele é matéria-prima vital para o preparo do escaldado de peru, receita feita com a carcaça da ave, cozida em um caldo enriquecido com cebola, alho, pimenta e outros ingredientes comuns que a pessoa tiver em casa. Aí, entram desde carnes (boi, porco e embutidos) a legumes e verduras (como mandioca e couve). Esse prato é obrigatório no primeiro dia do ano, e é servido logo que voltamos da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Para uma festa muito bonita, um prato muito gostoso.