Em sua Casa, Ieda Matos retoma a própria raiz

Quando o assunto é aprender, não existem barreiras na vida da chef Ieda Matos, dona do restaurante Casa de Ieda, em São Paulo. Quer dizer, existiram, sim. Tantas, que ela só conseguiu se formar no curso técnico aos 40 anos. 

 

Ieda Matos nasceu e foi criada na roça na Chapada da Diamantina, na Bahia. Em sua vida, a cozinha sempre esteve presente. “Minhas tias cozinhavam sempre. Naquela época, não existia ‘comida de rua’. Elas faziam os pratos e iam vender nas feiras em cidades próximas de onde nasci. Eu gostava de ficar na beira do fogão a lenha prestando atenção em tudo”, disse. Com 13 irmãos, ela vivia em meio à natureza da fazenda, onde sempre foi incentivada pelo pai a trabalhar. “Enterrávamos a mandioca nas águas calmas do rio e isso virava a massa puba. Dela saíam nossos mingaus, bolos e biscoitos”, conta. 

 

Crescida, Ieda foi morar na capital, Salvador, para trabalhar. “Passei por uma série de trabalhos informais, incluindo mercados, e cozinhas para fazer marmita e bolo. Sempre mantive essa conexão com a cozinha”, conta. Até ali, o aprendizado vinha da experiência, já que o estudo formal na cozinha só chegou depois dos 40 anos. 

 

“Vim para São Paulo com 35 anos, quando tive a chance de estudar. Carregava a bagagem da cozinha simples, de origem, respeitando ingredientes e o pequeno produtor. Nunca esqueci minhas origens”, diz. Aos 42, com diploma do curso técnico na mão, surgiu mais uma oportunidade: morar fora do país. “Meu marido terminou a faculdade de Biblioteconomia na UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos) e ganhou uma bolsa para estudar na Bélgica. Fui com ele e passamos um ano lá. Enquanto ele estudava, eu fazia estágios em diferentes cozinhas”, conta Ieda, que não falava o idioma, mas sempre se arriscou a aprender mais. “Batia de porta em porta com coragem. Não falava nada de inglês, mas estudei um pouco de espanhol. Na gastronomia, você não precisa falar com as palavras, falamos com a faca na mão. Todos usamos a mesma linguagem ao cozinhar”, conta. 

 

Voltando ao Brasil, a dúvida era uma só: trabalhar 12h na cozinha de alguém ou montar um negócio próprio? A solução foi, no auge dos food truck, criar um que levasse sua identidade. “Fiquei três anos com a Kombi batizada de Boca Piu – O Segredo da Gastronomia Nordestina.” Quando esse mercado saturou, surgiu a hora (e o orçamento) para abrir um ponto fixo. Foi assim que nasceu a Casa da Ieda, em Pinheiros, São Paulo. “Fui para a Chapada Diamantina, fiz uma pesquisa com cozinheiras e voltei para São Paulo decidida a trabalhar com pratos da minha região de origem”, conta Ieda, que adaptou sua maneira de temperar ao paladar paulistano (por exemplo, usando menos coentro). 

 

“A gastronomia brasileira é minha vida, meu ingrediente. Amo minha terra. É dela que vem tudo de que preciso. Ela é riquíssima”, conta, cheia de orgulho.