Expoente da herança quilombola no país, mãe Neide é praticamente um patrimônio da cultura afrobrasileira. Com forte atuação no Estado de Alagoas, é figura das mais importantes entre as religiões de matriz africana. Nasceu em Arapiraca, território remanescente quilombola, e foi batizada Maria Neide Martins, em uma família extensa – é uma dos 114 netos de Cecília (que teve 121 filhos e 68 bisnetos), cozinheira e quituteira do quilombo. “Naquela época, não tinha essa coisa de chef”, disse ela a Guga Rocha, embaixador do Instituto, em um dos episódios da live Origens da Culinária do Brasil, promovida em nosso Instagram (@institutobrasilagosto).

 

Quando ouviu o chamado para a culinária do sagrado, antes dos 15 anos, tornou-se Mãe Neide Oyá D´Oxum. E abraçou o ofício desde então. Agora, aos 60, adicionou a seu aprendizado ancestral uma pós-graduação em culinária brasileira. “Sou orgulhosa de ser mulher brasileira, negra e cozinheira. Também sou mãe, resistente, filha de Zumbi”, celebra a gastrônoma, que é embaixadora da culinária alagoana e foi nomeada patrimônio vivo do Estado. Em seu currículo ainda estão a fundação da ONG Inaê – Centro de Formação e Inclusão Social; e do GUESB – Grupo União Espírita Santa Bárbara; e o prêmio Dólmã, que, em 2017, acrescentou expressão nacional a seu trabalho. 

 

“A cozinha quilombola é onde tudo nasceu. Em liberdade, não na senzala. A comida criada ali não é só alimento do corpo, mas também da alma e da resistência. É o útero do nosso povo brasileiro”, conta ela. Mãe Neide conta que no quilombo, em geral, os moradores tinham o usufruto da terra e eram feitos grandes banquetes para os reis negros. “Nós somos ricos. O Quilombos dos Palmares chegou a ser a terceira maior cidade do país! Nunca fomos escravos, somos filhos de reis e rainhas que fomos escravizados. Ainda sonhamos com a liberdade – em todos os sentidos.” 

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